Canto Curto com Bernardo Fernandes



Bernardo Fernandes, técnico do Venlo HC da Holanda e um dos criadores da famosa página de Facebook “Self-Pass”, sagrou-se, recentemente, campeão da Fase Regular da Terceira Divisão Holandesa. A Federação Portuguesa de Hóquei não podia deixar passar este acontecimento em claro e decidiu realizar uma entrevista para a comunidade conhecer melhor este treinador, que, há cerca de cinco anos, deixou a sua pátria para se dedicar ao hóquei numa das nações mais competitivas a nível mundial, a Holanda.
 

Antes de mais, gostaríamos de o felicitar pela conquista da Fase Regular da Terceira Divisão Holandesa, como se sente por ter alcançado este feito?
 
Passaram apenas alguns dias depois da conquista e ainda não assimilei totalmente este feito. Também o facto de ter sido campeão dois anos consecutivos, primeiro com a equipa feminina e agora com a equipa masculina, faz desta conquista ainda mais especial e inédita.

Sinto uma mistura de emoções e pensamentos; por um lado realização profissional, sensação de dever cumprido, alívio pelo facto de termos conseguido aguentar a pressão de permanecer durante todo o campeonato na primeira posição com uma equipa tão jovem/inexperiente. Depois, pessoalmente, sinto que consegui inspirar, formar uma equipa e transmitir os meus conhecimentos a este grupo de jogadores.
 
Na temporada passada, esta mesma equipa (com a exceção de 2 novos jogadores) tinha terminado o campeonato na oitava posição com 10 derrotas em 22 jogos, este ano terminamos o campeonato em primeiro lugar com o menor número de golos sofridos de toda as competições Holandesas. 
 
Porém, apesar de termos sido campeões da fase regular, falta agora jogarmos jogos de playoff para tentar ascender à divisão acima. 
 
 
Como tem sido esta experiência como treinador num dos países mais competitivos da modalidade?
 
Tem sido excelente, de uma aprendizagem permanente. Sinto que tenho muita sorte pelo facto de me poder dedicar profissionalmente ao desporto que amo, todos os dias da semana. 
 
Antigamente, pensava erradamente que o contexto competitivo onde estava inserido faria por si só que me tornasse melhor treinador, até que percebi que a minha dedicação ao estudo do jogo e dos jogadores, assim como uma preocupação com o funcionamento sociocultural das equipas, são os elementos mais importantes na minha “bagagem” como treinador.

Qualquer treinador pode aprender e tornar-se melhor se tiver disponibilidade e compromisso para tal, independentemente do nível em que está inserido.
 

Como é que começou e como foi o seu percurso no Hóquei?
 
Começou aos 9/10 anos quando um colega de turma foi convidado para ser guarda-redes da equipa infantil do extinto e saudoso GDS Cascais (clube da minha terra). Ele convidou-me para ir com ele ver um jogo e, para mim, assistir aquele desporto estranho pela primeira vez foi amor imediato.
 
Depois de ter jogado por volta de 10 anos no Cascais com enormes jogadores e grandes amigos que preservo até hoje, o clube acabou com a secção de hóquei em campo e todos os jogadores se mudaram para o Lisbon Casuals, onde estive 2 ou 3 temporadas se não estou em erro, depois joguei 1 ano no Valencia HC em Espanha, naquela que talvez tenha sido a experiência mais enriquecedora e inspiradora para o facto de me ter dedicado à carreira de treinador, quando voltei a Portugal joguei metade de uma temporada pela Académica de Espinho junto a alguns jogadores que cresci a admirar, como é o caso do meu amigo José Catarino.

Mais tarde, há sensivelmente 5 anos, viria a viajar para Holanda por motivos de um estágio, onde comecei então de forma profissional a dedicar-me à carreira de treinador.  

 
Qual é o momento pessoal mais marcante para si na modalidade?

Felizmente, é difícil referir apenas um momento pessoal, o hóquei já me deu tantos momentos marcantes dentro e fora de campo, como jogador ou treinador, que seria totalmente impossível imaginar a minha vida sem ele.
Os campeonatos nacionais de sala conquistados pela formação do Cascais, atingir a final de sala com a equipa sénior do Cascais, certos golos, certas vitórias, certas estratégias quando resultam, os títulos que já conquistei pelo Venlo, a promoção à divisão A com Portugal sub-21, a vitória por shootouts contra Itália com a seleção sénior no ano passado, os amigos, as paixões e até os inimigos que vou adquirindo tem tornado esta viagem inesquecível. 

 
Como surgiu a oportunidade de treinar o Venlo HC?

Surgiu depois de ter começado de forma voluntária a treinar a segunda equipa feminina de sub18 do Venlo HC.
 
O clube constatou que eu preparava os treinos e os jogos de forma cuidada e profissional (hoje em dia, olhando para trás, acho que até terá sido um bocado exagerada a abordagem que tive, dado o nível e o compromisso que as jogadoras tinham na altura), depois disso, o clube convidou-me para treinar equipas masculinas de sub16 e sub18 e, finalmente, ofereceram-me um contrato como coordenador técnico e treinador adjunto da primeira equipa feminina.
 
Passei três anos a trabalhar com a primeira equipa feminina até termos conseguido finalmente sermos campeões e a promoção no ano passado. Depois decidi que precisava de um desafio novo e, já este ano, assumi a primeira equipa masculina, com a qual consegui ganhar o campeonato já nesta primeira época.  


Quais são, para si, as maiores diferenças da modalidade na Holanda e em Portugal?
Existem mais de 250.000 praticantes de hóquei na Holanda. É esta a maior diferença.


Quais foram os maiores desafios que encontrou na sua adaptação a um país estrangeiro?
A minha ética de trabalho e dedicação permitiu que fosse sempre respeitado a nível profissional. Depois, ligeiras diferenças culturais dentro e fora do desporto que fazem sempre parte da experiência de quem vai viver e trabalhar para o estrangeiro. Nunca deixei que isso fosse desculpa ou obstáculo para o que quer que fosse. 
 

O Bernardo é um dos fundadores do projeto Self-Pass. Pode-nos falar um pouco mais sobre este projeto e da projeção que alcançou?

O self-pass é um projeto que nasce da minha vontade de aprender e, ao mesmo tempo, partilhar conhecimentos e factos sobre o nosso desporto. Depois, de forma orgânica, começou a tornar-se uma plataforma de interesse para grandes figuras do panorama internacional.
 
Finalmente, começou a tornar-se um fenómeno nas redes sociais, quando em conjunto com o Luis Tavares, David Franco, Tiago Sousa e Miguel Ralha, decidimos começar a realizar filmes a exibir truques e skills. Hoje em dia temos fãs literalmente em todos os cantos do mundo e é gratificante receber tamanho reconhecimento a nível mundial, pela paixão e pela forma como vivemos e acreditamos que o hóquei deve ser vivido.  


Por fim, que conselhos gostaria de deixar para os mais jovens que almejam seguir uma carreira no Hóquei e para aqueles que gostariam de arriscar a um nível internacional?

Que se se dedicarem a 100% ao desporto, que se tiverem talento, e a isso juntarem uma atitude positivamente ambiciosa, é possível chegarem a competir com um espanhol ou um holandês. 
 
Que o 'azar' que tiveram ao ter nascido num país onde a nossa modalidade é tão minoritária e fragilizada, e por esse facto terem tido menos oportunidades que outros jovens que praticam a modalidade em países mais desenvolvidos, não deve ser um fator de inibição, mas, pelo contrário, pode ser um tónico para uma maior dedicação, para uma maior ambição de superação.
 
Eu também compito contra treinadores mais velhos, mais experientes, alguns com maior e melhor currículo. Arriscaria dizer que 90% dos treinadores adversários têm muitos mais jogos jogados como treinador e jogador que eu, mas será que eles investem o mesmo tempo a tentar aprender, analisar vídeos, a estudar os jogadores, a ver jogos, a informarem-se sobre o desporto tanto tempo como eu?
 
Tudo é possível e tudo conta. 

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