Mário Almeida na "Dica do Treinador"



O terceiro treinador a dar a sua "dica" é Mário Almeida, atual treinador dos seniores masculinos do Sport Club do Porto.

O mister incide na técnica individual que, no seu entender, é um conceito muito abrangente, onde as receções, passes e pegas de stick são, genericamente, os conceito base.

Recordamos que os treinadores que quiserem dar a sua "dica" devem enviar um documento com o conteúdo proposto para mcastro@fphoquei.pt

"Todos nós nas nossas vidas conhecemos como funciona o ensino. Genericamente, o percurso escolar começa na escola primária, passa pelo ensino secundário e termina na Universidade.

Todos sabemos e reconhecemos que isto tem lógica, porque primeiro há que aprender as letras e os números para se poder construir frases e fazer contas. E assim sucessivamente.

No hóquei é exatamente assim. Há uma progressão metodológica, a qual devemos utilizar. Todos os grandes treinadores a nível mundial consideram a técnica individual como a base do hóquei - a sua escola primária na metáfora de cima.

Mais do que passes e receções, a técnica individual é um conceito abrangente. Receções (abertas e fechadas, de direita e de esquerda, altas e baixas), passes (push, flick, flat e stickada) e pegas de stick («grips») são, genericamente, os conceitos base. Nestes grupos da técnica há muitas especificações, desde colocações de cotovelos, joelhos, posição relativa da bola face aos pés, colocação dos pés, pulsos, movimentos de braços, etc. Mas, igualmente muito importante, a abrangência deste conceito significa que técnica aplicar em cada caso. Dois exemplos práticos: 1. sempre que procuro progressão no terreno, a melhor receção que posso fazer é aberta, de esquerda e alta; é a mais arriscada, mas é a mais progressiva; se, pelo contrário, quero posse de bola, devo escolher receções fechadas, de direita e baixas. 2. O melhor passe decisivo para golo, tipicamente, é um passe de push, com simulação. Raramente um flat resulta numa assistência para golo (tirando os casos da lotaria que é o auto-golo agora).

Por outro lado, as receções de um defesa esquerdo são completamente diferentes das de um defesa direito. As de um extremo esquerdo completamente diferentes das de um extremo direito. As de um médio são completamente diferentes das de um avançado. As receções de um avançado centro são muito específicas. Um flat de um defesa direito é, tipicamente, para trás, para devolver a outro central. Para a frente deve usar stickada ou push. Já um defesa esquerdo, com um flat pode colocar a bola rápida quase na área do adversário, ao passo que uma stickada faz perder muito tempo. As pegas de stick devem alterar-se muitas vezes consoante as situações de jogo. Em Portugal conheço poucos jogadores que tenham a pega correta para aplicar um coreano de esquerda. A defesa individual 1x1, sem os pés paralelos, é uma técnica individual importantíssima.

No alto nível, uma vez que há muitas marcações individuais, há muitas rotações de jogadores, mas também as há porque os jogadores de top têm recursos técnicos que os outros não têm. Por isso, fora do alto nível há que especializar e trocar de posições o menos possível. Há que fazer menos (porque há limitações) e procurar fazer pouco e bem. Vejo poucos jogadores a mudarem a «grip» numa defesa 1x1, situação em que vejo sistematicamente jogadores com pés paralelos. É raro ver um desarme de «jab» num jogador português. A velocidade de circulação da bola nos passes é ridiculamente baixa. As receções são, genericamente, fracas e improvisadas. E por aí fora…

Um exemplo prático do sala português: o Carlos Silva tem, talvez, um dos melhores passes de primeira simulados do mundo, passe este que, no sala, só faz sentido na posição de defesa direito. Se assim é, obrigá-lo a rodar por imposição tática significa que a equipa perde uma grande arma técnica. O que ganha com a mobilidade compensa o que se perde? Claro que não! Outro exemplo, mas este do campo: vejo equipas nacionais a fazerem grandes rotações desordenadas no meio campo. Alguém contou quantas receções em progressão não são feitas, quantas receções são falhadas e quantas bolas são perdidas num jogo fruto da colocação tática intencionalmente desordenada?

Em toda a minha carreira, em todas as equipas e seleções que treinei, sempre coloquei a tónica na base do nosso desporto - a técnica individual, latum senso. Desde o fatídico e incompreensível despedimento do Luis Jorge Ciancia, o hóquei português quer ser universitário sem fazer a escola primária. Poucos entenderam ainda que a AD Lousada tem dominado o hóquei português não porque tenha melhores táticas, não porque esteja melhor fisicamente que os adversários, mas porque tem a maior quantidade de jogadores com mais recursos técnicos e os jogadores mais especializados nas suas posições. O hóquei português perdeu essa noção e a profusão de transmissão de jogos internacionais de alto nível foi levando ao erro de paradigma e desfoque do essencial em busca do inatingível.

Assim, a minha dica é muito clara: preponderância do treino na técnica individual e na sua correta aplicação por parte de cada jogador, na sua posição. Como em tudo na vida, sem fundamentalismos. O trabalho físico é importante. O trabalho tático é importante e quanto mais tática individual melhor (esta fica para outra dica do treinador). Mas desenganem-se os que pensam que a nova geração «diamante» que aí temos é muito evoluída tecnicamente, porque não o é. E, pior que isso, está a desaproveitar o seu potencial e arrisca a «perder-se» no meio de um trabalho errado e mal conduzido, porque desfocado da progressão metodológica e do que realmente o hóquei evoluído necessita de base. Não se pode ser doutor sem se fazer a escola primária! Não se podem fazer equipas sem se fazer jogadores primeiro!"

Mário Almeida
Atualmente treinador do Sport Club do Porto, passou pelas espanholas da AD Ourense entre 2007 e 2008, foi treinador e diretor técnico da AD Lousada entre 2002 e 2007, e num período de 2009, colaborando ainda por diversas nas seleções nacionais de hóquei em campo e sala, onde foi treinador principal e adjunto

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