
Por: Jorge Pinto de Sousa (Médico)
Título: Atitudes imediatas nas lesões agudas dos tecidos moles
Está de volta a rubrica de saúde/performance desportiva da FPH. No terceiro "Consultório", Jorge Pinto de Sousa fala-nos das atitudes imediatas a ter nas lesões agudas dos tecidos moles, tendo estas como objectivo minimizar as complicações e criar as condições ideais para a recuperação dos tecidos. Apesar da eventual necessidade de apoio terapêutico especializado numa fase posterior, os cuidados a ter nas primeiras 48 horas são decisivos no desenrolar do processo post lesão. Assim, neste "Consultório" passará a saber o que deve e o que não deve fazer, sempre que surgirem tais lesões.
Recorde-se que nos "Consultórios" anteriores, Jorge Pinto de Sousa fala ainda da importância da hidratação na prática desportiva e os cuidados a ter antes, durante e após o jogo, bem como abordou a fadiga neuro muscular, um assunto de elevada importância no rendimento do(a) atleta.
Nota: se tiver questões/dúvidas que gostaria de ver esclarecidas/aprofundadas, sobre este artigo ou qualquer outra temática, por favor envie um e-mail com as mesmas para deptcomunicacao@fphoquei.pt
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As lesões mais frequentes no hóquei são as lesões traumáticas directas, as entorses da tíbio - társica e as lesões musculares. Os tecidos moles são, portanto, as estruturas mais frequentemente envolvidas neste tipo de lesões.
As causas podem ser extrínsecas, em que a lesão surge em consequência de um traumatismo externo, ou intrínsecas em que a lesão não surge por agressão de um agente externo mas por um desequilíbrio entre a capacidade de uma determinada estrutura e as solicitações impostas no desempenho de um gesto desportivo.
Em qualquer dos casos os tecidos lesionados são sempre sede de um processo inflamatório responsável pelas quatro manifestações típicas da lesão aguda : calor, rubor, tumor ( tumefacção ) e dor. Esta reacção fisiológica dos tecidos surge de forma exagerada imediatamente após a lesão e prevalece normalmente durante as 48 horas seguintes.
As atitudes imediatas perante a lesão têm por objectivo minimizar as complicações e criar as condições ideais para a recuperação dos tecidos. Apesar da eventual necessidade de apoio terapêutico especializado numa fase posterior, os cuidados a ter nas primeiras 48 horas são decisivos no desenrolar do processo post lesão. De facto, a adopção de determinadas regras básicas e de aplicação extremamente simples reduz de forma significativa o tempo de recuperação e melhora a qualidade da estrutura recuperada.
A atitude inicial deve ser tomada o mais precocemente possível já que a permeabilidade vascular dos capilares e das vénulas pós - capilares na área da lesão aumenta até ao máximo em 10 /30 minutos após a estimulação. Os procedimentos básicos são normalmente representados pela nomenclatura inglesa:
R - Rest / Repouso
I - Ice /Gêlo
C - Compression / Compressão
E - Elevation / Elevação
Repouso
Após a lesão, a estrutura lesionada deverá ser sujeita a um período de repouso numa posição especificamente seleccionada.
Na grande maioria das lesões o repouso deverá ser absoluto nas primeiras 48 horas. Nas horas seguintes o repouso deverá ser selectivo, i.e., o atleta poderá realizar qualquer tipo de actividade que não implique a mobilização da estrutura lesionada e/ou aparecimento de dor ou agravamento dos sinais inflamatórios ( p. ex. a situação de um atleta com um traumatismo da coxa que tem dor ao sprint mas não na corrida lenta, não é incompatível com determinado tipo de treino ).
Gelo
A aplicação de frio é um dos métodos mais antigos de redução da tumefacção e da dor e é o método terapêutico de eleição em todas as lesões músculo - esqueléticas agudas. Os efeitos da aplicação do gelo são :
A aplicação de gelo não deve ser feita directamente sobre a pele para evitar o risco de queimadura. Nas primeiras 2 horas após a lesão devem fazer-se 3 aplicações com 20 minutos de duração e com intervalos de 30 minutos entre cada uma:
Gelo Interv. Gelo Interv. Gelo
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Até às 48 / 72 horas seguintes deve fazer-se uma aplicação de 20 minutos em cada 2 horas.
A compressão da região afectada permite o controlo do edema / hematoma, impedindo a invasão dos tecidos vizinhos minimizando, assim, as complicações. Deve ser feita com ligaduras elásticas adesivas ou não adesivas.
Importa ter em atenção os compromissos circulatórios e nervosos já que se pretende uma compressão e não um bloqueio.
Elevação
A elevação é a atitude mais importante no favorecimento do retorno venoso e linfático diminuindo assim a formação do edema e do hematoma. Após a lesão o atleta deve aproveitar todos os momentos de repouso para manter o segmento lesionado elevado em relação à cintura pélvica (se no membro inferior) ou à cintura escapular (se no membro superior)
As atitudes a evitar estão resumidas na seguinte sigla inglesa:
H - Heat / calor
A - Álcool / álcool
R - Running / corrida / actividade
M - Massage / massagem
Calor
Na fase aguda ou inflamatória deve ser evitada a aplicação de qualquer forma de calor sobre a região lesionada por produzir um aumento da circulação local e, necessariamente, um aumento do volume do edema e do hematoma.
A aplicação das diversas formas de calor está reservada para as fases de reparação e remodelação tecidular após ter cessado a resposta inflamatória aguda à lesão.
Álcool
A aplicação local de álcool, apesar de promover uma vasoconstrição imediata por efeito de frio, determina uma vasodilatação secundária com consequências semelhantes às da aplicação de calor.
De referir que a ingestão de bebidas alcoólicas durante a fase aguda deve também der interdita pelas suas características vasodilatadoras sistémicas.
Como se referiu, a actividade que solicite a estrutura lesionada deve ser interdita durante a fase aguda por incrementar o metabolismo local e, portanto, a dor, o edema e o hematoma.
O tempo de inactividade vai estar condicionado pela gravidade da lesão e pela precocidade e correcção da intervenção inicial.
Após a fase aguda (48-72 horas) o movimento controlado é muito importante pois favorece a reparação da estrutura segundo as suas linhas de tensão e permite a preservação das características mecânicas (contrácteis) e funcionais (proprioceptivas) dos tecidos lesionados. Nesta fase (reparação e remodelação tecidulares), o respeito pela dor é a atitude mais correcta, i.é, o exercício deve acontecer sempre abaixo do limiar da dor.
Massagem
Durante a fase aguda ou inflamatória está absolutamente contra-indicada a massagem por complicar a lesão inicial e pôr em causa a recuperação dos tecidos de forma eventualmente grave.